A proposta do governo dos Estados Unidos de impor tarifas de até 25% sobre produtos brasileiros pode impulsionar a procura por vistos de residência voltados a investidores e acelerar a instalação de operações de empresas brasileiras em território americano. Isso porque, diante dos destemperos diplomáticos, o empresariado nacional deve priorizar a estabilidade de seus negócios em mercados consumidores estabelecidos em meio ao vaivém geopolítico.
Segundo Daniel Toledo,advogado especializado em direito internacional e sócio do escritório LeeToledo PLLC, que vê na medida um potencial catalisador de estratégias de internacionalização já adotadas por parte do empresariado nacional.
Segundo ele, empresários que atualmente exportam para os Estados Unidos podem passar a considerar a abertura de unidades locais como forma de preservar competitividade e reduzir os impactos das novas barreiras comerciais.
“O empresário que hoje exporta para os Estados Unidos pode começar a avaliar se faz mais sentido investir diretamente no mercado americano”, afirma Toledo. “Dependendo do setor, a abertura de uma operação local pode neutralizar impactos tarifários e ainda abrir portas para processos migratórios legais.
Entre as alternativas está o visto EB-5, programa que permite a obtenção do Green Card mediante investimentos produtivos a partir de US$ 800 mil em áreas consideradas prioritárias e a geração de pelo menos dez empregos em tempo integral. O especialista também aponta possíveis ganhos de relevância para modalidades como o L-1, destinado à transferência de executivos entre empresas do mesmo grupo econômico, e o E-2, disponível para brasileiros com dupla cidadania em países que mantêm acordos comerciais com os Estados Unidos.
Apesar do acirramento da fiscalização, a medida não deve impor critérios novos à imigração, mas complexificar os já existentes. Segundo Fernando Canutto, sócio do Godke Advogados, o país pode ser taxado, sancionado ou tarifado, porém a lei migratória é diferente.
“O Brasil já vem sofrendo restrições migratórias há algum tempo, mas não é algo relacionado às tarifas. Essas são questões que atingem única e exclusivamente importações”, explica Canutto.
A iniciativa está alinhada à agenda protecionista do presidente Donald Trump, que tem defendido o uso de barreiras tarifárias para fortalecer a indústria nacional e estimular a produção dentro dos Estados Unidos. Para Toledo, a eventual taxação representa mais do que uma disputa comercial entre os dois países.
“Quando as tarifas aumentam, muitas empresas percebem que exportar deixa de ser a alternativa mais eficiente”, diz. “Historicamente, barreiras comerciais levam empresários a buscar presença física no mercado consumidor para evitar custos adicionais e manter a competitividade.”
Na avaliação do advogado, o cenário guarda semelhanças com o observado durante a guerra comercial entre Estados Unidos e China, quando diversas empresas decidiram transferir parte de suas operações para o mercado americano em vez de continuar exportando.
“A história mostra que muitas empresas deixam de exportar e passam a produzir localmente quando enfrentam barreiras comerciais”, afirma. “Foi exatamente isso que aconteceu com inúmeras companhias durante as disputas comerciais entre Estados Unidos e China.”
Embora a medida tenha como objetivo declarado proteger a economia americana, Toledo argumenta que os efeitos podem atingir empresas e consumidores dos próprios Estados Unidos. Isso porque diversos produtos brasileiros integram cadeias produtivas relevantes nos setores de siderurgia, mineração, agronegócio, alimentos industrializados e componentes industriais.
“O discurso político costuma focar na proteção da indústria nacional, mas a realidade econômica é mais complexa”, afirma. “Muitas empresas americanas dependem de insumos importados do Brasil. Quando esses produtos ficam mais caros, parte desse aumento é repassada ao consumidor final ou reduz a margem de lucro das empresas locais”, conclui.