Segundo especialistas ouvidos pelo Band.com.br, o desafio agora é fortalecer o sistema sem comprometer sua praticidade
Cinco anos após sua criação, o Pix se consolidou como o principal meio de pagamento no Brasil — rápido, simples e amplamente acessível. Mas a mesma popularização que o transformou em símbolo da modernização financeira também abriu espaço para uma explosão de fraudes.
Segundo especialistas ouvidos pelo Band.com.br, o desafio agora é fortalecer o sistema sem comprometer sua praticidade.
Conversamos com Alexander Coelho, sócio do Godke Advogados e especialista em Direito Digital e Cibersegurança, e com Cleórbete Santos, professor de Ciência da Computação do Mackenzie Alphaville, para entender quais caminhos podem tornar o ambiente das transferências instantâneas mais seguro para bancos e usuários.
O que os bancos precisam fazer?
Para Coelho, o Pix não é o problema — o ecossistema em volta é que ainda tem brechas. “A segurança passa por camadas de autenticação comportamental, análise de risco em tempo real e detecção automática de padrões suspeitos”, afirma. Limitar valores ou impor restrições de horário pode ajudar, mas não resolve o cerne da questão. “É um cinto de segurança, não uma solução definitiva”, diz.
Santos concorda e lista um conjunto de medidas tecnológicas que podem elevar a proteção:
IA para detectar anomalias, como valores atípicos, horários incomuns ou chaves recém-cadastradas;
Monitoramento do comportamento do usuário, com análise de velocidade de digitação ou forma de segurar o celular — desde que com consentimento, por envolver dados biométricos;
Verificação reforçada em dispositivos novos, utilizando device fingerprint;
“Transação em espera” para valores altos enviados a chaves não habituais;
Lista de contatos confiáveis, com níveis diferentes de checagem para cada categoria;
Botão de pânico em casos de coação;
Comunicação integrada entre bancos para rastrear contas laranja;
Facilidade no acesso ao MED dentro dos aplicativos.
Como o usuário pode se proteger no dia a dia
Os especialistas reforçam que a maior parte dos golpes não depende de falhas tecnológicas, mas de manipulação psicológica. “A regra básica é simples: desconfie do improvável”, diz Coelho.
Entre as medidas recomendadas:
Confirmar pedidos urgentes de parentes por videochamada antes de transferir;
Desconsiderar ligações de supostos bancos pedindo testes de Pix ou dados pessoais;
Nunca compartilhar senhas ou códigos enviados por SMS ou aplicativos de conversa;
Definir limites de transferência, especialmente no período noturno;
Ativar autenticação multifatorial em todos os aplicativos;
Cadastrar CPF e telefone como chaves Pix para evitar uso indevido;
Fazer dupla checagem de valor e destinatário antes de confirmar a transferência;
Verificar QR Codes antes de utilizá-los;
Manter-se atualizado sobre golpes recentes e repassar as informações à família.
“Os golpistas exploram pressa e emoção. A maior barreira de proteção ainda está entre o teclado e a cadeira”, afirma Coelho.
Avanço importante, mas ainda insuficiente
O Mecanismo Especial de Devolução (MED) foi criado para permitir que vítimas de fraudes recuperem valores enviados para contas suspeitas. Para Coelho, o recurso é crucial, mas ainda apresenta lacunas por depender da velocidade de identificação do golpe.
Santos explica que o sistema atual tem uma limitação: o dinheiro só pode ser devolvido se ainda estiver na primeira conta que recebeu o Pix — o que raramente acontece, já que criminosos fazem transferências sucessivas em poucos minutos.
Isso deve mudar. O MED atualizado, que será obrigatório a partir de 2 de fevereiro de 2026, permitirá:
rastreamento em cadeia de até cinco níveis de transferência;
bloqueio de valores em contas intermediárias, e não só na primeira;
reembolso em até 11 dias, mesmo após pulverização dos recursos.
O objetivo é desestimular o uso de contas laranja e ampliar a efetividade do combate às fraudes.
Inteligência artificial e biometria
Tanto Coelho quanto Santos destacam o papel crescente da inteligência artificial na proteção das transferências digitais.
Hoje, algoritmos conseguem:
identificar transações atípicas em segundos;
cruzar informações como geolocalização e histórico do dispositivo;
bloquear contas recém-criadas que recebem grandes quantias rapidamente;
exigir prova de vida (como piscar ou mover a cabeça) antes de confirmar transações de alto valor.
A mesma tecnologia usada para deepfakes também é usada para combatê-los.
“Os bancos têm modelos mais robustos e datasets muito maiores. A IA será um anjo da guarda invisível”, diz Coelho.
O futuro do Pix
A próxima geração do Pix deve trazer:
Segurança adaptativa, com mais etapas de autenticação conforme o risco da operação;
Pagamentos recorrentes e internacionais, com camadas de proteção mais sofisticadas;
Verificação mais rígida de MEIs, para evitar abertura de contas usadas em golpes;
Conferência automática de chaves Pix com dados da Receita Federal;
Possibilidade de “travar o CPF” no Registrato, impedindo a criação de chaves sem autorização e prova de vida.
É uma evolução natural, segundo os especialistas: quanto mais digital a economia, mais complexas precisam ser as defesas.
O Pix segue como uma ferramenta eficiente, democrática e central na vida financeira do brasileiro. Mas o avanço dos golpes exige uma resposta coordenada: bancos investindo em tecnologia, governo aperfeiçoando regulamentos — e usuários adotando hábitos de proteção.
No futuro próximo, a inteligência artificial será o principal mecanismo de defesa do sistema. Mas até lá, o cuidado individual continuará desempenhando papel decisivo para evitar prejuízos.
Fonte: Portal Band